Ívina Angélica Ferreira Dodô cresceu em Várzea Grande, estudou a vida inteira em escola pública e construiu a carreira no Sistema Único de Saúde (SUS) em Mato Grosso. Aos 41 anos, é a primeira vez que pretende colocar o nome à disposição de um cargo público.
Há mais de vinte anos, a rotina de Ívina Angélica Ferreira Dodô é a mesma. Uniforme, plantão e o improviso diário de quem trabalha na ponta da saúde pública. profissional da enfermagem, sanitarista, especialista em urgência e emergência e servidora pública municipal, ela atende na UPA do Verdão, em Cuiabá, onde recebe pacientes quase sempre no pior dia da vida deles.
Conhecida como Ívina da Enfermagem, ela é hoje pré-candidata a deputada federal por Mato Grosso pelo Avante, partido em que preside a Comissão de Mulheres no estado.
DO BAIRRO SANTA CLARA À ENFERMAGEM
A história começa em Cuiabá, onde nasceu, e se firma em Várzea Grande, no bairro Santa Clara, perto do Parque do Lago, onde cresceu. Vem de uma família simples. O pai sempre sustentou a casa lavando carros. Ela estudou em escola pública do primeiro ao último ano.
A formação veio em etapas, cada uma conquistada com trabalho. Primeiro o curso técnico em enfermagem. Depois a graduação. Em seguida a especialização em urgência e emergência e a formação de sanitarista pela Universidade Federal de Mato Grosso.
"Eu não cheguei aqui por atalho. Cheguei estudando e trabalhando muito, intercalando as jornadas entre dia/noite e contando sempre com a minha família", afirma. "Sei o que é começar de baixo, porque foi de lá que eu vim."
Casada há 26 anos, mãe e cristã, ela costuma dizer que a enfermagem não foi só uma escolha profissional. Foi o lugar onde entendeu o próprio propósito.
O QUE MUDOU
A decisão de entrar na vida pública, segundo ela, nasceu dentro do próprio serviço e da realidade politica vivida hoje em nosso país. Foi na convivência diária com filas/falta de leito/medicamentos/insumos/estrutura/dimensionamento insuficiente de profissionais/desvalorização e pacientes chegando para atendimento com agravamento do seu estado de saúde, que Ívina passou a enxergar as limitações dentro dos diversos níveis de atenção.
"Tem problema que não se resolve dentro do hospital. Se resolve onde as decisões são tomadas, e ali quase nunca tem alguém que conhece essa realidade por dentro", diz.
Ela afirma que nunca se imaginou nesse caminho. "Nunca planejei isso. Mas chegou um ponto em que continuar só reclamando no corredor deixou de fazer sentido pra mim."
AS BANDEIRAS
A valorização da enfermagem é o eixo central do discurso. Ívina defende que a conquista do piso salarial da categoria foi importante, mas insuficiente diante da realidade de quem enfrenta jornadas dobradas e perda de poder de compra. Para ela, enfermeiros, técnicos e auxiliares formam a base que sustenta o atendimento no país e seguem entre as categorias menos valorizadas.
A saúde pública aparece logo em seguida. Ela sustenta que o gargalo do sistema não está apenas na urgência, mas na atenção básica que poderia evitar que o paciente chegasse ao agravamento do caso. "O paciente que chega em estado crítico quase nunca começou crítico. Ele só não teve o atendimento preventivo antes", afirma.
A proteção da família, o combate ao feminicídio e o enfrentamento da violência contra a criança completam o conjunto de causas que defende, ao lado de segurança e educação. São temas que, segundo ela, atravessam a experiência profissional.
"Como enfermeira, eu já atendi mulher que tinha denunciado e não foi protegida. Já atendi criança que foi machucada por quem deveria cuidar dela. Isso não sai da gente", diz.
A PAUTA DA ENFERMAGEM
Quando o assunto é a própria categoria, Ívina acompanha de perto a tramitação que hoje mobiliza os profissionais em todo o país. A Lei 14.434, de 2022, criou o piso nacional da enfermagem e fixou os valores de referência de R$ 4.750 para enfermeiros, R$ 3.325 para técnicos e R$ 2.375 para auxiliares e parteiras. A norma, no entanto, nasceu sem um mecanismo automático de correção. Segundo as entidades da categoria, o piso já perdeu cerca de 20 por cento do poder de compra desde então.
A resposta em discussão no Congresso é a PEC 19, que vincula hoje o cálculo do piso a uma jornada de 36 horas semanais e determina que o reajuste anual não seja inferior à inflação acumulada do ano anterior. Em abril deste ano, foi aprovada por unanimidade na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Desde então, aguarda inclusão na pauta do Plenário para depois seguir à Câmara dos Deputados.
"Foi aprovada por unanimidade. Esquerda, centro e direita concordaram. E mesmo assim continua parada, esperando alguém colocar na pauta", afirma. "Enquanto isso, o salário de quem está na beira do leito vai encolhendo todo ano."
Outro ponto que ela levanta é a distância entre a lei aprovada e a lei cumprida. Mesmo com a legislação em vigor e decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a aplicação do piso, ainda há registros de descumprimento em Mato Grosso e diante desta situação acredita ser necessário pedir esclarecimentos sobre a destinação de repasses federais.
"Aprovar a lei é metade do caminho. A outra metade é fiscalizar se ela chega na ponta, no contracheque do profissional", diz.
Ívina defende ainda a regulamentação da jornada de 30 horas semanais para a enfermagem, reivindicação histórica da categoria. Hoje, apenas três das quatorze profissões da área da saúde têm jornada reduzida assegurada em lei. Ao lado disso, aponta a aposentadoria especial, considerando a exposição contínua a agentes biológicos, e a saúde mental dos profissionais como pautas que raramente entram no debate público.
"Esgotamento na enfermagem não é frescura. É uma crise silenciosa que afasta profissional bom, sobrecarrega quem fica e no fim prejudica o atendimento de todo mundo", avalia. "Quem cuida também precisa ser cuidado."
Ela faz questão de incluir toda a equipe quando fala de valorização. "Quando eu digo enfermagem, eu digo enfermeiro, técnico, auxiliar e parteira. O técnico e o auxiliar quase nunca são citados, e são a maior parte da categoria."
MULHERES NA POLÍTICA
Além da atuação profissional, Ívina preside a Comissão de Mulheres do Avante em Mato Grosso. À frente do colegiado, trabalha na articulação e na formação de mulheres interessadas em participar da vida pública no estado.
A aproximação com o tema, segundo ela, tem relação direta com a profissão. A enfermagem é majoritariamente feminina, e boa parte das mulheres que ela atendeu ao longo de duas décadas chegou ao serviço de saúde em situação de violência.
"São mulheres cuidando de mulheres, quase sempre. E ainda assim a gente é pouco ouvida nos lugares onde as decisões são tomadas", afirma. "Quanto mais mulher preparada ocupar esses espaços, mais perto a política fica da vida real."
UMA CAMINHADA DE BAIXO PARA CIMA
Sem histórico político e sem estrutura partidária consolidada, Ívina define a própria trajetória como uma construção feita de baixo para cima, apoiada na rede que formou ao longo de duas décadas de profissão, especialmente entre profissionais de saúde de Cuiabá e Várzea Grande.
"Não tenho máquina, não tenho padrinho. Tenho uma história e uma causa", resume.
A frase que sintetiza o discurso dela é também a que repete com mais frequência quando explica por que decidiu dar esse passo: quem cuida de você merece cuidar do Mato Grosso.
SOBRE ÍVINA DA ENFERMAGEM
Ívina Angélica Ferreira Dodô, 41 anos, é enfermeira, servidora pública municipal, especialista em urgência e emergência e sanitarista formada pela UFMT. Nasceu em Cuiabá, cresceu em Várzea Grande e atende na UPA do Verdão. Preside a Comissão de Mulheres do Avante em Mato Grosso e é pré-candidata a deputada federal pelo partido no estado.